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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

OS  ATAQUES  E  AS  OFENSAS

 

        

 

aquela noite ninguém saiu para as emboscadas, e nós ‘’Dragões de Jabadá’’ cansados como estávamos, logo após o jantar fomos repousar para a cama.

         Quando já dormíamos, deviam ser 21 horas, fomos acordados em sobressalto com grandes rebentamentos bem perto de nós. Os cabrões ali, tomavam a ousadia de se aproximarem do arame farpado para nos atacarem.

         Subimos à parte de cima dos abrigos e começámos a enfrentá-los até os fazer recuar! A luta foi renhida e durante 2 horas estivemos embrenhados num autêntico inferno. De repente recuaram e tudo voltou ao silêncio, mas eis que quando pensávamos que tudo tinha acabado, eles voltam passado uma hora ainda com mais força, fazendo-nos voltar novamente ao inferno, durante mais uma hora e meia, e passado esse tempo por mais incrível que pareça, tudo ficou reduzido ao silêncio. Eles pararam a artilharia e nós também ... aproximaram-se do arame farpado e a guerra passou a ser outra completamente diferente. Começaram a gritar blasfémias e nós a responder da mesma forma.

         Gritavam eles:

         - Vai no Lisboa!... Teu mulher é um puta!... Tu vem no Giné e ela fica no Lisboa a foder com os outro!... Teu mãe também é um puta!... Você todos serem cabrões e filhos dum puta!... Vai embora cú Giné não é teu ... Portuga do merda ... Tuga duns cabrão vai no teus téra ... vai levar no cú! ...

         O Fiúza sentiu-se tocado e por pouco que não estragava a festa ... saltou para cima de G - 3 em punho e a peito descoberto, e como um louco começou a gritar:

         - Venham cá seus cabrões!... Seus filhos da puta!... Seus paneleiros ... Seus cobardes ... Seus isto, seus aquilo ... E ao mesmo tempo, que gritava, disparava de rajada na direcção deles ... eles por sua vez riam e por sorte não lhe ligaram, caso contrário se quisessem tinham limpado o sarampo ao Fiúza.

         Aquilo foi giro e voltou-se a repetir por diversas vezes, pena era que a guerra não se pudesse resolver assim, com ofensas e palavrões.

         Houve quem gravasse estas cenas em cassete de áudio. Eu ainda tive em meu poder, uma dessas cassetes, que me foi oferecida a troco de uma tatuagem que fiz, e que mais tarde alguém fez o favor de me roubar. Foi pena mas paciência, só faço votos para que quem a roubou, ainda a conserve em bom estado.

         O inimigo era esperto, astuto e tinha a zona bem vigiada. Por exemplo, se nós saíssemos à noite para nos emboscarmos em qualquer ponto estratégico, esperando que eles passassem para irem atacar o quartel,  eles nunca apareciam, levando-nos desta forma a pensar que tinham sentinelas a vigiar as nossas saídas. Do que não tínhamos nós dúvidas, porque nunca tivemos confrontos directos com eles e só nos atacavam quando não saíamos. E para isso tinham de ter a certeza, caso contrário sujeitavam-se a ser apanhados desprevenidos, o que nunca aconteceu.

         Começámos portanto a sair quase todos os dias, praticamente das 8  até às 2 ou 3 horas da manhã, passando assim a sermos menos atacados.

         Não há dúvida que estas passagens da minha vida até foram bastante emotivas e engraçadas. Só que na altura eu não pensava assim, muito pelo contrário o que eu mais pensava era em safar o pêlo. Hoje recordo com alegria e saudade a maior parte dos bons momentos que por lá passei, porque os maus só os estou a recordar agora, com a finalidade de escrever este livro.

         Os dias foram passando, ao passo que nós nos íamos ambientando à nova vida. Nova Sintra começou a deixar de ser um pesadelo, para aos poucos se ir tornando num paraíso, talvez devido à presença dos ‘’Dragões de Jabadá’’. Não que lhes metêssemos medo, mas porque éramos mais e por esse motivo mantínhamo-los em respeito e à distância, embora vivêssemos sempre atentos e desconfiados, desconfiando até do ar puro que respirávamos.