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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

FUNERAIS  E  RITUAIS

 

        

 

omeçámos a ouvir batuques que se prolongavam durante toda a noite e até ao fim do dia, ao mesmo tempo que os abutres evadiam toda a aldeia, poisando nos ramos das árvores e telhados das tabancas, chegando a ser às dezenas.

         Por mais incrível que pareça os abutres eram trazidos pelo cheiro da morte e enquanto o cadáver não fosse enterrado por ali permaneciam impávidos e serenos.

         Tive oportunidade de ver a união que existe nessa raça de aves. Num desses dias de funeral tínhamos o telhado do abrigo coberto dessas aves e eu comecei a afugentá-las, mas elas teimavam em poisar, agarrei na G-3 e dei um tiro numa, que foi a cambalear e caiu no cimo de uma pequena rocha dentro do rio, como insistia em levantar voo continuei a alvejá-la não sei com quantas balas... mas aqueles pássaros têm mais vidas que um gato preto. Deixei-a num passador e mesmo assim ainda tentava voar, o que mais me impressionou foi ver os outros a tentar salvá-lo sem medo de serem alvejados também.

         Os abutres embora sejam aves repugnantes e mal cheirosas, em parte salvam-nos de muitas doenças porque devoram todos os animais que morrem nas florestas, salvando-nos assim de sermos contaminados com os vírus ou micróbios que exalam da carne em decomposição.

         Os abutres fazem muita falta à humanidade e por esse motivo tínhamos de pagar 500$00 de multa por cada um que abatêssemos, embora o meu caso passasse despercebido porque não chegou ao conhecimento do capitão Capucho.

         Voltando aos funerais, como já disse os tambores tocavam de noite e de dia, e esse som ia transmitindo o acontecimento às pessoas de outras aldeias que a pouco e pouco vinham chegando para festejar, comer, beber, dançar e participar nos rituais.  Todas essas pessoas vinham munidas de oferendas que na sua maioria eram géneros alimentícios, tais como: mandioca, papaia, mangos, arroz, galinhas, porcos, cabras etc. que entregavam às viúvas ou aos familiares do defunto.  Matavam a maior parte dos porcos que haviam pertencido ao morto, depois temperavam com sal e assavam somente com o fogo da palha que tiravam dos telhados das tabancas. Dançavam durante todo o dia ao som dos batuques, ao mesmo tempo que davam pulos e faziam rituais muito estranhos, que segundo eu soube mais tarde, serviam para afugentar os maus espíritos.

         Esses rituais e essas danças davam-nos uma enorme vontade de rir, mas felizmente avisaram-nos a tempo para nos contermos, dizendo-nos para termos cuidado com os gozos, caso contrário eles ficavam furiosos.

         Com o tempo fui-me fazendo amigo do Daga: que era feiticeiro e chefe de tabanca e muitas das vezes que havia funerais, ele quase sempre oferecia uma perna de porco, para o pessoal do abrigo, a troco de amizade.

         O defunto era enterrado na própria casa. Escavavam um buraco com mais ou menos três metros de profundidade e aí o sepultavam.

         Por volta das 16 horas levavam-no ao rio, enrolado numa esteira, davam-lhe banho, voltavam-no para o sol, faziam rezas e rituais, e logo de seguida enfiavam-lhe um litro de aguardente cana pelas goelas abaixo, depois enrolavam-no em cobertores completamente novos e por fim numa esteira também nova, levando-o de seguida a sepultar no enorme buraco da tabanca.

         Isto no que diz respeito aos mais velhos, com os mais novos era muito diferente, não havia festas nem rituais, apenas sofriam e choravam silenciosamente.