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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

A COMIDA

 

        

 

ntretanto aproximou‑se a hora do jantar e como a fome apertava, lá fomos entrando para uma enorme sala, para comermos uns tantos de cada vez.

         Como a comida era feita para 1.800 homens é lógico que não podia ter qualidade. Aquelas batatas guisadas à cambalhota com carne de vaca, deixavam muito a desejar e de tão ajavardadas que estavam até faziam perder o apetite. Que remédio, tínhamos de comer para nos mantermos e como não havia mais nada sempre serviam para enganar a fome.

         No outro dia de manhã ao pequeno almoço, o café parecia água barrenta e a manteiga rançosa mais parecia sebo de carneiro, restava‑nos o pão que era casqueiro de boa qualidade.

         O almoço foi batatas cozidas, com pescada amarelada e ressequida. Visto ser assim, não podia desperdiçar por mais tempo o contacto que a minha mãe me tinha mandado, embora andasse a evitar chatear quem quer que fosse.

         Da parte da tarde meti‑me por corredores e labirintos, até que encontrei alguém da tripulação a quem  perguntei se me informava onde podia encontrar o 2.º comandante maquinista Brito.

         Levaram‑me à presença dele, e eu depois de agradecer, apresentei‑me meio tímido e envergonhado.

         O comandante imediatamente me pôs à vontade e perguntou‑me:

         - Você é o filho da Dona Conceição?

         Respondi‑lhe que sim, e ele disse:

         ‑ Então porque é que não me veio procurar logo no 1.º dia?     Disse‑lhe que tive vergonha e hesitei em o vir chatear.

         Ele respondeu:

         ‑ Hó homem! Perca a vergonha, porque comigo está à vontade e olhe que vergonha não enche barriga.

         Depois disse‑me que a minha mãe lhe foi apresentada pela Dona Luisa e que lhe tinha prometido fazer por mim tudo o que estivesse ao seu alcance.

         Conversámos durante mais alguns minutos e ele disse:

         ‑ Pronto, agora que já sabe onde eu me encontro, apareça aqui por volta das 19 h 30, que é a hora que eu saio do serviço e depois vamos os dois jantar à messe dos oficiais.

         E foi assim que eu de um momento para o outro passei a fazer as refeições num hotel de 5 estrelas, na companhia de um homem bom e generoso, que me punha completamente à vontade sem olhar a hierarquias ou preconceitos, e que inclusivamente me dizia:

         ‑ Se precisar de alguma coisa não hesite e vá ter comigo à casa das máquinas.

         Entretanto o navio enfrentava fortes tempestades, com enormes vagas que o engoliam e logo o faziam emergir, sacudido pela possante força das ondas que quase o forçavam a levantar voo como se fosse um enorme monstro de borracha. Ainda por cima era assolado pelo temporal que se fazia sentir, com fortes chuvadas, vento e trovoada.

         A situação metia respeito e até medo, e eu pus‑me a pensar:

         ‑ Queres ver que não morri de um tiro na guerra e ainda vou acabar por morrer afogado.

         Nisto dirigi‑me a um "velho" marinheiro e disse‑lhe:

         ‑ Hé amigo, isto está mau, e por vezes até parece que o navio se vai afundar.

         Respondeu‑me:

         ‑ Não tenha medo que vai chegar inteiro a Lisboa e este temporal é como uma sandes para a boca.

         Fiquei menos receoso, e ao jantar tive a mesma conversa com o comandante Brito, onde ele me disse que sossegasse porque não havia perigo. Já tinha enfrentado vendavais muito piores.

         Depois disse‑me que íamos chegar à Metrópole muito antes do tempo previsto, porque devido ao temporal tiveram de dar mais velocidade ao navio, ou seja ia a uma velocidade de mais nós por hora.