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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

AS  RATAZANAS

 

        

 

omo já disse mais à frente, os habitantes dos abrigos éramos nós, os ratos e as cobras; mas como estes últimos viviam praticamente escondidos nós muito raramente lhes ponhamos a vista em cima.

         Acontece que no meio do abrigo tínhamos um grosso barrote a segurar o tecto, e o Barata como era carpinteiro de profissão arranjou madeira e começou a construir uma mesa redonda à volta desse barrote: ficámos espantados com tanta habilidade e saudámo-lo pelo facto. A mesa fez um enorme jeito para escrevermos ou jogar cartas e até para outras serventias.

         No barrote que segurava o tecto e agora também a mesa, pregámos um prego para pendurar o saco do pão.

         O pão vinha logo de manhã com o café, já a contar com almoço e jantar, portanto ali ficava pendurado durante o dia todo.

         Um dia por volta das 18 horas, era já noite porque começava a escurecer por volta das 17,30, estávamos os oito a conversar em frente à porta do abrigo. Nisto o Fiúza meteu a mão para dentro do abrigo e carregou no interruptor da luz que se encontrava ali mesmo à entrada, deu um grito e disse:

         - Ena pá tanta rata a fugir de dentro do saco do pão!...

         Espreitámos para ver e como não vimos nada pensámos que era brincadeira, e ele disse:

         - ai julgam que eu estou a gozar?

         - Então já vão ver.

         Apagou a luz e saiu cá para fora, deixou passar uns segundos e chamou-nos. Acendeu a luz e nós vimos de facto umas seis ou sete ratazanas a fugirem pelo barrote acima para se esconderem no tecto. Perante o sucedido não tivemos outra alternativa se não procurarmos um lugar seguro onde elas não chegassem.

Passados dois ou três dias, por volta das 21,30 horas, deitámo-nos todos excepto o Bartéló que estava cá fora a fazer o primeiro reforço.

         De repente começámos a ouvir guinchos na parte de cima do tecto e houve até quem dissesse que as ratas estavam no fornicanço.

         Passados momentos sentimos qualquer coisa a cair no chão e o Fiúza disse:

         - Serra, acende a tua pilha e aponta para o chão para vermos o que é que caiu do tecto.  Assim fiz e ficámos espantados quando vimos uma enorme cobra preta como o carvão a enrolar uma ratazana, possivelmente uma daquelas que nos andou a roer o pão.

         Gritámos pelo Bartéló e ele mandou-me apontar a luz na direcção da cobra. Depois de ver onde se encontrava foi buscar um pau e às escuras deu cabo dela. Ficámos de boca aberta... ele nem precisou de luz -  será que os pretos vêem no escuro? ...

         Ficámos intrigados e mais tarde acabámos por comprovar que sim, porque eles viviam nas tabancas completamente às escuras e viam perfeitamente porque não tropeçavam nem batiam com a cabeça nas paredes, salvo quando estavam cheios de aguardente cana, que era a bebida que quase todos em geral mais gostavam e que os fazia entrar nas nuvens ou a planar de manhã à noite, principalmente quando faziam a colheita do arroz que trocavam na cantina civil por bens materiais, mais propriamente por panos que serviam de vestuário, louça e aguardente cana.

         Mas o Bartéló era um preto diferente, fora para Lisboa  muito pequeno, pela mão de brancos que o criaram e educaram, levou a mesma instrução que a maioria de nós e por força das circunstâncias foi forçado a voltar às origens, "há terra que o viu nascer", oportunamente voltarei a falar do Bartéló.