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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

UM  PASSEIO  ATÉ  ESTREMOZ

 

        

 

ntretanto  passaram-se   mais  três  dias  e  inesperadamente  vem  o  alferes Madureira e diz-me:

         - Serra prepare-se que você e mais outros seis vão ser destacados agora mesmo para o Regimento de Cavalaria 3 em Estremoz. Eu lamento muito mas não posso fazer nada. São ordens superiores do Comando. 

         - Mas meu alferes, - respondi eu:

         - Assim sem mais nem menos, sem ao menos ter tempo para avisar a família, quando são quase 17 horas.

         - Por isso mesmo tem de se despachar, vá à secretaria buscar a guia de marcha e depois de tudo tratado está um Jipe à vossa espera para os levar à estação dos barcos que vão para o Barreiro onde apanharão o comboio para Estremoz. Dito isto despediu-se desejando-me sorte.

         A viagem foi uma autêntica seca. Mudámos de comboio (ainda movidos a carvão) três vezes: em Pinhal Novo, Casa Branca e Évora. Quando chegámos a Estremoz eram 6 horas da manhã do dia 18 de Novembro de 1968. Passámos praticamente a noite toda na viagem.

         Às 7,30 da manhã entrámos no Regimento de Cav. 3 e logo de seguida apresentámo-nos ao oficial de dia, que por sua vez nos mandou apresentar na Secretaria, onde preenchemos um passaporte para 4 dias de licença. Esfregámos as mãos de contentamento e logo nos dirigimos à garagem da Empresa Cândido Belo, onde apanhámos uma camioneta que nos transportou até Alcântara.

         Passados os 4 dias voltámos para nos apresentarmos ao comandante da companhia onde iríamos ser incorporados.

         O capitão Duro Capucho depois de minuciosamente nos examinar perguntou se havia algum doente e eu pensei logo em jogar a última cartada:

         - Eu meu Capitão!  respondi.

         - O que é que você tem?

         - Falta-me o ar e sinto picadas no coração.

         - Eu logo vi que só mandavam para cá os inválidos. Se não se sente bem vai imediatamente para o hospital, porque eu não quero cá doentes.

         Da parte da tarde lá segui com as respectivas guias e apanhei o comboio com destino a Évora onde me apresentei no hospital por volta das 18 horas. O enfermeiro chefe depois de me dar um pijama e umas alpercatas, indicou-me uma cama numa sala com pouco mais de 30 doentes, com doenças inventadas, tal como eu que só pensava em me livrar da guerra.

         A sala era enorme e muito comprida, assustei-me com tanto silêncio, ali reinava a paz e o sossego, ali ninguém enganava o Dr. Belchior que era astuto e rigoroso com os militares que se faziam passar por doentes. Eu mesmo o comprovei, mas no fundo reconheci que era um homem que percebia muito do seu ofício e que no fundo tinha um bom coração.

         Deitei-me e fiquei à espera que me trouxessem o jantar. Passados poucos minutos apareceu um enfermeiro com um copo de leite. Perguntei-lhe:

         - O quê? Só isto? Ele respondeu:

         - Sim durante 3 dias só vais beber leite.

         - Mas porquê? Disse eu;

         - É para ficares a cagar macio. Respondeu-me o filho da puta.

         No dia seguinte pelas 9 horas da manhã o furriel enfermeiro mandou-me levantar e acompanhou-me ao gabinete do Dr. Belchior que ficava ao fundo da sala.  O Dr. Belchior devia ter uma idade compreendida entre os 58 a 60 anos, tinha cabelo grisalho ondulado e notavam-se já algumas rugas na face, mas era um homem bem parecido e dava até a sensação que os anos não tinham passado por ele.  Depois de me fazer algumas perguntas a respeito da minha doença, ficou alguns segundos a olhar para mim muito atentamente, levando-me a entender, que estava a fazer o exame da minha pessoa.  Depois pôs-se a escrever e disse para o furriel:

         -- Quero que este militar faça rigorosamente todos estes exames, e até ver não fica medicamentado.

         Voltei novamente para a cama, o silêncio era absoluto, mal se podia falar. A melhor maneira de passar o tempo, era lendo tudo o que aparecesse ou então indo para a casa de banho fazer sinais às costureiras que trabalhavam no edifício em frente.

         No dia seguinte comecei a fazer os exames: 16 radiografias em diversas partes do corpo, análises ao sangue e electrocardiogramas.

         Entretanto passaram-se 3 dias e passei a fazer as refeições no refeitório. Para isso tinha de descer ao primeiro piso, o que era bom, porque ajudava muito mais a passar o tempo, a comida não valia absolutamente nada. Quase sempre cheirava a galinha, mas sabia sempre a peixe.

         Chegou o primeiro domingo de internamento. Recebi a visita da minha mulher e do meu cunhado Raul que na altura era um miúdo de 14 anos, gostava muito de mim e adorava a irmã.  A minha mulher quando me viu começou a chorar, dizendo: - Carlos desiste disto, não vês que já estás farto de sofrer e não consegues nada?

         Prometi-lhe que esta seria a última vez e animei-a dizendo-lhe que o próximo fim de semana havia de passar com ela e com os miúdos, custasse o que custasse, e ela saiu muito mais satisfeita e eu, por força do destino, acabei por cumprir.

         Os dias passaram e entretanto os exames ficaram prontos.  Quinta-feira pelas 9 horas da manhã fui levado pelo furriel ao gabinete do Dr. Belchior, que me esperava com os exames em cima da secretária.  Entrámos e ele fez sinal ao furriel para sair, ficando só os dois no gabinete.

         Notei que o Dr. Belchior estava com cara de poucos amigos e pus-me de pé atrás. E ele disse:

         - Sabes, Lisboa, tu és um vigarista que vendes saúde e vieste práqui tentar enganar-me. E isso eu não te vou perdoar. Sabes há quantos anos é que eu me sento nesta cadeira? Vão lá 14, por isso mesmo é muito difícil deixar-me enganar. 

         Dito isto saiu da secretária e aplicou-me duas valentes bofetadas. Fiquei quieto, sem reagir, cerrei os punhos e mordi os lábios, e ele notando a minha reacção, perguntou-me o motivo de tanta coragem e safadêza. Respondi-lhe que adorava a minha mulher e os meus filhos, que era atirador e estava mobilizado para a Guiné, e que tinha lutado até ao fim, contra tudo e contra todos, para não me separar deles; mas que tudo foi em vão, porque a minha luta tinha acabado ali e já não tinha mais forças para continuar. 

         Ouviu-me atentamente e no fim disse:

         - Se me tens contado tudo isso antes de fazeres os exames, eu de certeza que te safava ... Juro que te safava!...

         Disse-o com tanta sinceridade que eu até acreditei.

         Depois de me ter pedido desculpa pelas duas " bolachadas" que me deu, disse:

         - Lamento muito não te poder ajudar; nada mais posso fazer, mas se quiseres podes ficar por cá mais alguns dias. Respondi-lhe:

         - Muito obrigado Doutor mas preferia que o senhor autorizasse a minha saída quanto mais depressa melhor.

         - Está bem. Toma o boletim da alta para entregares lá no quartel e depois passas pela secretaria do hospital para te darem a guia de marcha. Não quero deixar de desejar muitas felicidades,  para ti, para os teus filhos e para a tua mulher ... e também te quero felicitar, pela boa máquina que tens. O teu coração é um autêntico relógio. É bom para ti e bom para os teus. Vais ver que hás-de voltar da guerra sem uma beliscadura. Deus é bom e há-de olhar por ti.

         Agradeci, dizendo:

         - Muito obrigado doutor, o senhor é um bom homem, desejo que. Deus lhe dê muita saúde e muitas felicidades, ditas estas palavras apertei-lhe a mão e saí.

         Quando me apanhei cá fora nem cabia em mim de contentamento, mais parecia um passarinho que tinha fugido da gaiola, que um militar que tinha saído do hospital. A minha alegria não tinha limites, bati as asas e enfiei pela primeira tasca que me apareceu, e aí sim, desforrei-me bem, isso é que foi tirar a barriga de misérias, com uma boa pratada de ensopado de cabrito, regado com um bom jarro de vinho tinto, pão, chouriço, azeitonas e muitas outras coisas boas do nosso querido Alentejo. Comi até não poder mais e só depois de muito bem saciado, me resolvi a apanhar o comboio até Estremoz.

         Regressei novamente ao Regimento de Cavalaria 3 no dia 4 de Dezembro de 1968.  Onde logo no dia seguinte fui incorporado no 4.º Pelotão, cujo comandante era o então alferes Oliva Samaritano, homem de estatura mediana, forte e entroncado, cheio de vida e energia, muito nervoso e pouco paciente, não queria saber de problemas, mas se por acaso surgissem, resolvia-os em dois segundos, mal ou bem estavam resolvidos. Era cheio de decisões e nunca voltava as costas a quem compreensivamente lhe solicitava ajuda, principalmente àqueles que se encontravam na prisão até ao dia do embarque.

         Era um homem estudioso e inteligente, com o curso de direito quase concluído, na Universidade de Coimbra, cidade de onde é natural.

         Presentemente não tenho dúvida que deve ser um prestigiado advogado do nosso país.

         Do alferes Oliva está feito o perfil e não vale a pena adiantar mais, porque ele vai-me acompanhar até ao fim desta narrativa.

         Integrei-me no pelotão quase sem ser notado, como se fosse uma nova personagem desconhecida, que veio preencher uma vaga, e nesse caso era sempre bem vindo. Eu ali era um desconhecido e ninguém sabia praticamente nada de mim, porque segundo me apercebi, os relatórios médicos nunca chegavam à unidade.

         Aos poucos fui-me integrando e ao mesmo tempo mentalizando na partida para a Guiné, rendi-me à evidência e como sempre disse "a sorte de um homem é escapar",  portanto a partir daí pedi a Deus para me acompanhar.

         Começámos a instrução vagueando pelos campos e montes alentejanos; durante a noite dormíamos em vacarias no meio da palha juntamente com o gado, mas tudo isso era saudável porque naquela época fazia frio de rachar e desse modo estávamos quentes e confortados.

         Durante o dia andávamos aos pares pelos montes e vales, davam-nos um ponto de referência e às horas exactas da refeição tínhamos de regressar sem atrasos ao carro cozinha. Calhou-me como companheiro o Lorpa, que era oriundo do Norte. Mais tarde disse-me que estava muito bem impressionado com o povo alentejano, que era um povo bom, humilde e sociável.

         Caminhávamos por entre montes e vales e quando passávamos perto de alguma casa, as pessoas chamavam-nos e ofereciam-nos pão, chouriço, presunto e vinho, o que nós muito fervorosamente agradecíamos.

         Quero desde já deixar aqui bem expressos, os meus agradecimentos a esse bom povo alentejano dos arredores de Estremoz, que tão generosamente nos ofereciam o pouco que tinham, sem olharem às dificuldades em que viviam naquela época.