SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

DEDICÁMO-NOS  À  PESCA

 

        

 

omo não tínhamos material começámos a inventá-lo.  Afiávamos pregos e dobrávamo-los como um anzol, depois arranjávamos ferros para servir de chumbadas, com um cordel e um bocado de carne na ponta do prego, em poucos minutos apanhávamos o peixe que queríamos.

         Algum cozíamos, outro fritávamos, mas o que gostávamos mais era de raia, que cortávamos às tiras e temperávamos muito bem com limão e jindungo, e depois fritávamos com farinha, mas mesmo assim começámos a enjoar o peixe, e voltámo-nos para a caça.

         Na margem do rio era frequente ver uns pássaros a picarem no tarrafo, parecidos com pelicanos, que nós chamávamos maçaricos.  Um dia experimentámos matar um só para ver se a carne era saborosa, pois que receávamos que soubesse a peixe, mas depois de bem temperada, a carne sabia melhor que galinha.

         A partir desse dia começámos a fazer uma razia nos maçaricos.  Mas o pior é que o capitão Capucho ouvia os tiros no comando e começou logo com ameaças.

         Primeiro disse que todo aquele que desse tiros desnecessariamente pagava 7$50 por cada munição... nós não ligámos e continuámos, porque um maçarico valia muito mais que essa quantia.

         Mas o pior estava para vir e num certo dia pela tarde abati mais um para o jantar, visto a comida da cozinha estar cada vez pior.

Fui buscar a ave ao rio e quando venho com ela na mão a contemplá-la, aparece o Banhas e pergunta-me:

         - Serra foste tu que deste o tiro?

         - Fui sim porquê?

         - Então anda ao capitão que ele quer falar contigo.

         Entreguei o maçarico aos miúdos para o irem depenando, porque aquele já ninguém mo tirava, e lá segui com o Banhas.

         O capitão Capucho entendeu que eu ia servir de exemplo aos outros e como tal aplicou-me a ‘’sentença,’’ de ir para uma emboscada sem arma... ‘’sentença’’ bastante pesada sem dúvida.

         Felizmente que nessa saída não houve nada de grave a assinalar ... levei os bolsos com granadas e munições, mas se eu tivesse o azar de sermos atacados, a minha defesa pouco ou nada adiantava. De resto fui sempre protegido por aqueles que iam mais bem apetrechados, principalmente de fitas e metralhadoras.

         Logo após termos chegado ao objectivo o capitão passou palavra para eu me deslocar para junto dele

         Juntei-me a ele, olhei-o nos olhos e notei que disfarçadamente já dava sinais de arrependimento, ao mesmo tempo que imagino eu, já estava a pedir a todos os santinhos, para que não houvesse confronto entre nós e os guerrilheiros do P. A. I. G. C., caso contrário se eu fosse para os porcos, ele ficava com a carreira completamente arruinada, o que para um militar de carreira e aprumado como ele não devia ser nada fácil.

         O castigo que me aplicou podia-lhe ter saído muito caro, mas para mim podia ter sido fatal.

         Se o General Spínola na altura tivesse conhecimento deste castigo, o capitão Capucho de certeza que ia sofrer as consequências.

 

         Quando o conheci o capitão Capucho em Estremoz deu-me a sensação de que estava perante um mito de Hollywood dos fabulosos anos 50... dada a apresentação e a figura marcante que ele proporcionava.

         Sempre muito bem uniformizado... mostrando asseio, bom gosto e pujança, - com qualquer farda vestida fazia sensação, distinguindo-se dessa forma de todos e quaisquer oficiais subalternos.

         Era alto robusto e possante, com os seus 32 anos. Pai de um filho com talvez seis ou sete anos e casado com uma senhora bela e charmosa que eu tive oportunidade de ver em Estremoz.

 

         De resto na Guiné manteve sempre o mesmo perfil e aprumo.