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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

"GOLPE DE ESTADO" EM CONAKRY

 

        

 

s dias iam passando, felizmente sem grandes alarmismos. Saíamos menos vezes para o mato e os ataques do inimigo ao aquartelamento só muito raramente se verificavam. Talvez por já sermos velhinhos e experientes, os guerrilheiros do P.A.I.G.C. não quisessem mais nada connosco, pensando que era melhor nos deixarem em paz e sossego, ou então por não terem material para nos atacarem, uma vez que nós lho capturámos às toneladas.

         De qualquer das maneiras, estávamos quase a atingir o fim da picada, e isso é que era importante.

         Numa bela manhã ouvimos na rádio, que havia um "golpe de estado" em Conakry e que tropas "Africanas" se movimentavam pela capital e cidades, ocupando as rádios locais e os pontos de informação.

         Que se viam L.D.M’s. no rio com tripulação negra, de que se desconhecia por completo a nacionalidade tanto das L.D.M’s. que não tinham matricula, como das tropas que evadiram Conakry.

         Suspeitámos logo que era manobra das nossas tropas, porque sabíamos que o Comandante Chefe António de Spinola, há alguns meses atrás, tinha começado a organizar uma Companhia de Comandos Africanos, preparando desta forma o golpe a longo prazo.

         Sabíamos também que tanto o alferes Souto França como o furriel Rui Cervantes, há alguns meses atrás, haviam sido por diversas vezes destacados, para o quartel dessa Companhia de Comandos Africanos.

         Mas como segredo é segredo, nunca ninguém conseguiu saber o que eles por lá andavam a fazer. Só mais tarde me confidenciaram que os dois tinham tomado parte na instrução dos soldados e na preparação da operação que o Brigadeiro António de Spínola preparou engenhosa e inteligentemente, com o objectivo de libertar os nossos prisioneiros e capturar o presidente Sekou Touré e o chefe do P.A.I.G.C. Amilcar Cabral ... só que os dois foram alertados a tempo e conseguiram fugir.

         As forças militarizadas não ofereceram resistência e os comandos entraram por aquartelamentos, estações de rádio e informação, sem qualquer obstáculo ou oposição, e facilmente libertaram os nossos compatriotas que ali se encontravam encarcerados e a sofrer, já com poucas esperanças de voltar à liberdade, uma vez que alguns já se encontravam ali há perto de sete anos.

         No golpe foram os Comandos Africanos que deram a cara, como presumíveis autores, só que recebendo ordens dos nossos oficiais, que se disfarçavam de pretos, com a cara e as mãos mascarradas.

         O golpe foi um enorme êxito, coroado de sucessos, servindo especialmente para libertar os nossos prisioneiros, e também para lhes mostrar que éramos uma força dominante e inteligente, e que a qualquer momento os podíamos exterminar, uma vez que eles apoiavam os nossos inimigos, que quando se sentiam encurralados passavam a fronteira e continuavam a atacar-nos do lado de Conakry, onde tinham as suas bases de guerrilha.

         Disseram‑me também que foi pena não conseguirem apanhar os cabecilhas mas que terem libertado os nossos prisioneiros, foi a maior glória e a maior alegria que um militar pode ter.

         Depois de me deixarem ao corrente de tudo quanto se tinha passado, ofereceram‑me algumas notas, que tinham trazido de lá e que eu mais tarde acabei por extraviar, por saber que não tinham valor algum. Hoje tenho pena de o ter feito, porque era sempre uma recordação.