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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

JABADÁ

 

 

 

esembarcámos por volta das 16 horas e fomos recebidos com grande alegria e algazarra por parte dos "velhinhos" que ansiosamente nos esperavam, já de malas aviadas para embarcarem nos mesmos barcos que nos trouxeram.

         Depois de nos darem algumas orientações relacionadas com o modo como se vivia ali, rapidamente começaram a embarcar, assim do género ... Ála, antes que se faça tarde, nós já sofremos o suficiente.

         Missão cumprida. A guerra para eles acabou ali... Partiram numa grande euforia, doidos de contentamento rumo a Bissau e mais tarde Metrópole, deixando os periquitos entregues à sua sorte,  sem experiência e à mercê dos "turras", que logo nos primeiros momentos nos tentaram e quase conseguiram desorientar.

         Jabadá era uma pequena aldeia, que ficava situada numa das margens do rio Geba, com uma população calculada em 3.000 habitantes nativos. A maioria era constituída pela raça Balanta seguindo-se os Biafadas e por último Fulas e Futa-Fulas, que eram em menor número.

         A aldeia estava concentrada num círculo e para a proteger estavam colocados abrigos de duzentos em duzentos metros pouco mais ou menos, e era nesses abrigos que nós vivíamos e nos defendíamos do inimigo.

         Na parte da frente dos abrigos, a uma distância talvez de 50 metros, havia uma protecção de arame farpado, juntamente com potentes holofotes colocados em barrotes de "pau ferro", que iluminavam a uma distância bastante razoável para dentro do mato, o que aliás nos facilitava bastante a visão nocturna, com energia produzida por um gerador, que de vez em quando estoirava e lá ficávamos nós durante uns tempos às escuras.

         Na parte de fora do arame farpado, encontravam-se as bolanhas onde a população cultivava o arroz que era a base principal da sua alimentação. O resto era mato, capim e selva.

         Logo após a partida dos "velhinhos" fomo-nos acomodando naquelas que iriam ser as nossas casas, (cada abrigo dava para abrigar 7 ou 8 homens no máximo). Eu por sorte fiquei no abrigo de "Marte". Eu próprio com o tempo, entendi que devia dar os nomes dos astros do nosso sistema solar aos abrigos, porque passados poucos meses, comecei a notar que andávamos todos nas nuvens, ou ‘’apanhados pelo clima’’: O capitão Capucho deu-lhes porém, os nomes das aldeias que rodeavam Jabadá.

         O povo dessas aldeias normalmente jogava com um pau de dois bicos: davam-nos informações quase nunca precisas, mas a quem ajudavam era sempre o inimigo e por esse motivo, de vez em quando, lá tínhamos nós de ir mandar uma dessas aldeias pelo ar, salvaguardando sempre a população, que no caso de não ter tempo de fugir, nós acabávamos por trazer sem animosidades ou maus tratos. apenas se destruíam as casas, tendo-se o maior cuidado para não ferir ninguém.

         Nestas situações os soldados portugueses eram exemplares, mantendo sempre um comportamento calmo e pacífico, tanto com os inimigos capturados como com a população, na maioria das vezes trazida para Jabadá, onde eram alimentados e mais tarde distribuídos pelas casas de familiares e amigos, onde com o tempo se acabavam por integrar, passando a fazer uma vida mais pacífica e sem tantos sobressaltos.

         Deste modo íamos conquistando a população para o nosso lado, que com o tempo fez aumentar Jabadá quase para o dobro, o que para nós era uma grande satisfação.