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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

OS ÚLTIMOS DIAS

 

        

 

uando desembarcámos em Bissau, já nos esperavam os camiões que nos iriam transportar até ao Quartel de Adidos, em Brá. E mais uma vez o capitão Capucho nos advertiu que não queria ver ninguém a rir, ou a manifestar-se.

         Chegados a Brá, fomos destinados a uma caserna onde depois de escolhermos a cama, arrumarmos os sacos e as armas, nos dirigimos ao refeitório a fim de almoçarmos.

         Da parte da tarde recebemos ordem para entregarmos a arma e os restantes materiais, excepto a camisa verde, as botas de couro e as calças.

         Esta seria a nossa única vestimenta até chegarmos à Metrópole, onde finalmente a trocaríamos pela nossa roupa civil.

         Ficámos também com um saco de lona que seria entregue com as calças, a boina, as cuecas, as botas, as meias e a camisa. E tudo seria respectivamente entregue no R.C.3 em Estremoz, quartel aonde pertencíamos, onde faríamos o espólio e finalmente passaríamos à ‘’Peluda’’.

         Como ficámos só com esta roupa, durante os treze dias que esperámos o embarque, tínhamos de andar pela cidade bem limpos e asseados. Caso contrário, estávamos sujeitos às represálias da Polícia Militar.

         E para que tal não acontecesse, quando precisávamos de lavar a roupa, juntávamo‑nos quatro camaradas e íamos lavá-la, ficando depois todos nus a jogar às cartas durante praticamente 1 h 30, que era o tempo que levava a secar.

         Entretanto o sargento Taínha começou a pagar‑nos o último vencimento e logo de seguida distribuíram a correspondência.

         Recebi um valor declarado e uma carta enviados pela minha mãe. Depois de guardar o dinheiro li a carta, onde me dizia que por intermédio de uma amiga me tinha conseguido um contacto no navio, para que eu passasse a viagem protegido e sobretudo bem alimentado. Mal eu embarcasse fosse procurar o senhor Brito, 2.º comandante maquinista.

         Recebi igualmente uma carta e um valor declarado da minha mulher, onde me dizia que estava louca de alegria, porque dentro de dias estaríamos juntos com os filhos para nunca mais nos separarmos.

         Depois de contar as notas dos dois valores declarados, preparei-me, e juntamente com alguns amigos viemos para a cidade a fim de nos divertirmos ... com dinheiro nos bolsos para gastar nos restaurantes, cervejarias de Bissau, e para comprar prendas para os meus filhos e minha mulher.

         Como já disse antecipadamente, estes últimos dias foram passados com a maior alegria, repletos de farra e comezanas. Embora a imagem que eu trazia gravada da Quintas me martelasse constantemente o cérebro e me deixasse profundamente triste. Mas perante as brincadeiras e alegrias dos que me acompanhavam, acabava sempre por me animar.

         Foram dias bem passados, principalmente na companhia dos camaradas e amigos, que eu conheci na consulta externa, e que por coincidência e para nossa grande alegria, embarcámos todos juntos.