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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

UM DOS MAIORES ACONTECIMENTOS DE TODA A GUINÉ

        

        

 

assados oito dias fomos informados de que íamos voltar a fazer outra operação no rio Corubal. Só que desta vez ia ser muito diferente.

         Partimos de madrugada, pelas duas horas da manhã, precisamente à mesma hora da primeira vez. Fomos acompanhados por  fuzileiros, pára‑quedistas  e  comandos.

         Todos juntos éramos 300 e poucos homens. Desta vez íamos confiantes e sem medo, e até desejávamos que houvesse confronto, porque quem os iria apanhar à mão éramos nós até quem sabe se teríamos a sorte de capturar alguns cubanos.

         Chegámos por volta das nove e trinta ao local já nosso conhecido, e antes de nos metermos à vontade, fizemos minuciosamente o reconhecimento às redondezas, para não sermos apanhados desprevenidos como já o tínhamos sido.

         Por ali ficámos durante aproximadamente meia hora colados às armas e sempre atentos a qualquer possível movimentação por parte do inimigo.

         Como tudo estava calmo e silencioso, prosseguimos pelo meio da selva até ao meio‑dia, sem nada de grave a assinalar, porque o inimigo  desertou ou fugiu com medo. O que nós queríamos era que eles aparecessem para ajustarmos as nossas contas.

         Mas os cubanos eram demasiadamente astutos e deviam ter temido o nosso elevado número.

         Parámos para comer parte da ração de combate que levávamos e enquanto uns comiam sentados outros mantinham‑se atentamente de vigilância.

         Nisto, houve uns cinco ou seis fuzileiros, que se sentaram em cima de uma enorme árvore  grossa e comprida, que estava caída no chão, coberta de folhas.

         Mas quando se sentaram o tronco resvalou deslocando‑se ligeiramente, deixando à vista a ponta de uma placa de cimento que se encontrava camuflada com a árvore e com as folhas.

         Era estranho e fez‑nos desconfiar. Sem perda de tempo deslocámos a árvore para o lado e retirámos a placa. Alarmados, deparámos, de boca aberta, com uma escadaria que dava acesso a um enorme bunker.

         Cautelosamente e de armas em punho, foram descendo uns dez ou quinze homens, enquanto nós cá fora fazíamos a segurança.

         Quando subiram, o capitão Carlos de Almeida disse que tínhamos descoberto um dos maiores roncos de toda a Guiné e sem perda de tempo, mandou comunicar para Bissau, a transmitir o que tínhamos encontrado.

Chegou a minha vez de matar a curiosidade, fiquei tão abismado que até me custou a acreditar naquilo que via.

         Um bunker enorme, que se podia considerar um autêntico arsenal, cheio de material bélico, onde se podiam ver as mais sofisticadas armas, principalmente de origem soviética, desde cunhetes de granadas e de munições, a caixas cheias de material cirúrgico do mais moderno que havia na época.

         Parecia‑nos incrível. Como é que os sacanas conseguiram tamanha construção naquele local, e com que dificuldades. Para o conseguirem só havia a possibilidade de terem de transportar todo o material através do rio, uma vez que dispunham já de diversas lanchas rápidas de origem soviética, além de outros barcos motorizados.

         A esta hora já os filhos da puta dos cubanos deviam estar a morder‑se de raiva, uma vez que nós, íamos deixá‑los desprovidos de qualquer material com que nos pudessem atacar.

         Contentes e satisfeitos, dáva­mos pulos por vermos assim desta maneira a nossa vingança concretizada.

         Em menos de um relâmpago começaram a pousar helicópteros junto de nós, enquanto os Fiat's sobrevoavam aquela zona fazendo o reconhecimento e largando de vez em quando uma daquelas ameixas que faziam estremecer toda a Guiné.

         Encontrávamo‑nos completamente protegidos pela aviação, e sem perda de tempo começámos a carregar o material do bunker para os helicópteros e só parámos ao anoitecer.

         Comemos e pernoitámos ali perto do bunker, escolhendo para isso as partes mais protegidas.

         De madrugada veio mais uma companhia de fuzileiros, para nos apoiar e ajudar a carregar o material, para as L.D.M.'s que os tinham transportado, e que se encontravam no rio, a escassos trezentos metros de nós e rodeadas de hipópotamos que abundavam naquele rio Corubal.

         Durante dois dias carregámos todo o material, até que finalmente regressámos ao quartel, contentes e alegres por termos participado, num dos maiores acontecimentos de toda a Guiné.

         E nessa noite comemos e bebemos, debaixo de uma grande alegria, num ambiente de pura confraternização.

         Por ali nos mantivemos durante mais alguns dias, a descansar, a comer, beber e dormir. Até que chegou o dia tão esperado da nossa partida para Jabadá.