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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

CONTINUAÇÃO DE BOM TEMPO

 

        

 

escobrimos a melhor maneira de arranjar petiscos sem termos de nos chatear muito.

         Começámos por apanhar ostras às toneladas com a maior das facilidades, cortando simplesmente varas das árvores, que depois íamos espetar numa margem submersa do rio. Pedindo para esse efeito, a um nativo que fosse connosco de canoa.

         Passados oito dias, íamos recolher as varas, que nessa altura já se encontravam carregadas de ostras.

         Mais tarde arranjámos um arco e uma rede das moscas e começámos a ir aos poços apanhar rãs. Para esse efeito convidávamos o Chaparro, que era um artista a esfolá-las, deixando‑lhes só as pernas, que temperávamos com vinho, alho, louro e jindungo. À noite, com elas ainda a tremerem, fritávamo-las com farinha.

         Depois, com uns bons copos de vinho tinto, deliciávamo‑nos a comer este saboroso petisco.

         Apanhávamos também centenas de pássaros, com uma rede e arroz a servir de isco. Mas como davam muito trabalho a depenar, metíamos os miúdos tardes inteiras a fazer esse serviço.

         Como os pássaros se apanhavam com muita facilidade, acabei por construir uma grande gaiola, com um caixote e uma rede de arame, que depois, com a ajuda do Maneiras e do Pantaleão, colocámos na parede do abrigo.

         Fazíamos uma selecção conforme íamos apanhando: os mais bonitos e de cores mais exóticas eram metidos na gaiola, que chegou a albergar perto de 200 pássaros de diversas raças; os outros ... iam para a frigideira.

         Coloquei na gaiola troncos de árvores e baloiços e até cheguei a pensar que ali é que se sentiam bem, porque comida não lhes faltava.

         A comida era baseada somente em arroz e pão. Mais tarde cometi a grande estupidez de lhes começar a dar marmelada.

         E foi fatal como o destino. Passados poucos dias começaram a cair que nem tordos. Deu‑lhes uma moléstia e já nem se mantinham de pé.

         Ficámos intrigados com a doença repentina, que afectou os pobres dos bichos e de que não sabíamos a causa. Até que o Chaparro foi lá por casualidade e viu os pássaros.

         Depois de fazer um exame à gaiola e aos bichos, chamou‑me e disse‑me:

         - Serra foste tu que mataste os bichos com a merda da marmelada. A marmelada agarrou‑se‑lhes à garganta como se fosse cola, provocando‑lhes infecção e por fim a morte.

         Fiquei triste por causa da minha estúpida ignorância e revoltei‑me comigo mesmo, pensando que melhor seria ter deixado os bichos em liberdade.

         Como já não havia remédio pedi ao Pantaleão para me ajudar a arrancar a gaiola da parede e juntos levámo‑la para o meio do mato. Tirámos‑lhe a rede e enxotámos os pássaros que ainda se encontravam vivos.

         No dia seguinte voltei lá e ainda se encontravam todos perto da gaiola, voltei a enxotá‑los e trouxe a gaiola.

         Vim tristemente a pensar na merda que tinha feito com os desgraçados dos passarinhos e jurei que a partir de agora iria deixar todo o ser vivo ter direito à liberdade e se possível a viver no seu habitat natural.