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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

A TRAIÇÃO DO PÚSCAS

 

        

 

Púscas, numa noite logo após o jantar, começou a desconversar. Eu não lhe liguei e mandei-o falar com o Camões e de frente para ele, baixei a cabeça para acender um cigarro.

         O cobarde aproveitou essa minha distracção e aplicou-me uma valente cabeçada, que me prostrou ao comprido pelo chão, ficando eu a ver estrelas durante alguns segundos. A caixa de fósforos e o cigarro voaram para longe.

         Levantei-me meio atordoado e fui-me ao traidor a soco e pontapé. Os outros vendo que o amigo estava a enfardar, logo vieram para nos separar. Se tivesse sido ao contrário, não se tinham dado a tanto trabalho.

         Agora para tocar a todos só faltava o Marôco, o que até nem levou muitos dias.

         Numa certa ocasião ainda antes do almoço, encontrávamo-nos dentro do abrigo, e eu pedi-lhe 100$00 que ele me devia há bastante tempo, do jogo da batota.

         Respondeu-me que o dinheiro da batota não se pagava a ninguém. Fiquei furioso e disse-lhe:

         - Pagas e tornas a pagar. Nem que tu te refôdas todo, se não pagas com dinheiro pagas com a puta da tromba!

         Passados segundos era soco que até fervia, com certos objectos do abrigo a irem pelos ares. Até que na luta o gajo desvia-se e eu acabei por dar uma valente cabeçada num dos ferros da cama, ficando com duas testas em vez de uma. Os outros mais uma vez acabaram por nos separar. E eu fui à enfermaria do comando, para me porem pomada "Thrombocid" na testa.

         Quando me encontrava na enfermaria, ouve um maricas que foi dizer ao sargento Taínha, que eu tinha andado à porrada.

         O Taínha entra disparado pela enfermaria adentro e pergunta-me:

         - O que foi isso?

         - Respondi-lhe que caí no abrigo e bati com a testa no ferro da cama.

         Ele pior que uma barata disse:

         - Escusa de estar a mentir porque eu já sei de tudo!       

         Você andou à pancada com o Marôco, como já andou com outros tantos. Você é um desordeiro e isto não pode continuar. Vou-lhe levantar um auto e pelo mínimo vai levar dez dias de detenção.

         - Mas meu sargento eu estou inocente. Eles no abrigo é que não gostam de mim e não perdem uma oportunidade para me provocarem e incitarem à pancadaria (embora no caso do Marôco fosse diferente). O que eu queria era que o meu sargento pedisse ao alferes Samaritano para me tirar de lá, porque eu não tenho sossego, e até lhe digo que não sou, nem nunca fui desordeiro porque me dou de perfeita harmonia com toda a gente, excepto com os do abrigo onde me encontro.

         Ele não ligou muito às minhas confissões e acabou por dizer que me ia levantar um Auto e esperar que o capitão Capucho regressasse da Metrópole para o pôr ao corrente da situação, e assinar o processo.

         Acho que o processo caiu em saco roto, porque o capitão nunca me chamou por esse motivo. E o sargento Taínha passou a olhar-me de soslaio  e com uma certa raivinha de dentes, deixando-me por esse motivo a pensar, que o capitão o mandou limpar o cu aos papéis.

         O sargento Taínha era um homem magro e chupado. Dava até a impressão que não comia para não cagar. Unhas de fome e forreta que só vivia para juntar tostão. De resto o que ele se estava mais era cagando para a guerra, e nesse ponto de vista ele é que tinha juízo, pois até nem precisava de pegar em armas para se defender, porque a luta dele era única e exclusivamente na Secretaria a tratar dos assuntos e da contabilidade da Companhia.

         Oriundo do Alentejo onde residia com a família (mais nos intervalos das comissões, porque ele ia a todas).

         Excluindo todos estes pequenos defeitos, até se podia considerar um homem bom.