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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

O  PROFESSOR  PARDAL

 

        

 

s dias iam passando, suportando-os sabe Deus com que sacrifício e já sem poder de encaixe para suportar o mau ambiente que se fazia sentir. Mas mantinha sempre a esperança de um dia mudar e para que isso acontecesse não perdia uma oportunidade, de pedir ao alferes Samaritano para me tirar de lá. Mas o pior é que ele não me dava ouvidos.

         Comecei-me a tornar triste e solitário, fugindo sempre que podia para junto da Danka e da Huana, que se esforçavam por me animar, mas já nem elas nem os meus amigos nativos me conseguiam alegrar. Ainda por cima, como se não bastasse ter de me defender do inimigo, tinha também de me defender dos colegas.

         Por esse motivo estava-me a tornar cada vez mais triste, amaldiçoando até o dia em que nasci. Embora sempre tentasse disfarçar, esforçando-me por ser forte e não me deixar cair em desalento, porque até essa data nunca tinha sido homem para me deixar desfalecer. Soube sempre dar a volta por cima e manter a áurea que só os verdadeiros e talentosos possuem.

         No abrigo, quando me encontrava na presença dos outros, tentava disfarçar a minha tristeza interior, ora brincando com o cão (o conservas) que pertencia ao Púscas, ora com os dois miúdos que lá faziam fascina  ou com os periquitos e sempre que o fazia, ria dentro da normalidade, evitando demonstrar o que se passava dentro do meu interior e porque não queria que os outros pensassem que estava a ficar louco.

         O que tentava a todo o custo, era que eles não notassem a minha tristeza e revolta, por ser obrigado a viver conjuntamente com eles no mesmo buraco, custasse o que custasse não lhes havia de dar essa satisfação. 

         Lembro-me ainda, que quando tinha dez anos de idade e frequentava a 4.ª classe do ensino primário em Odivelas, numa escola que ainda hoje existe e que fica junto há subida que vai para os Pombais.

         Essa escola já deve ter mais de 40 anos. Foi lá que aprendi o b-á-bá juntamente com o Fernando que se encontrava em Tite, e muitos outros, tais como o irmão e os primos.

         Recordo-me do professor que veio para nos ensinar, que era de marca caralh . . e só estava bem a bater nos filhos dos outros. Dava-nos reguadas por dá cá aquela palha e a mim de vez em quando bofetadas de três em pipa.

         Quando tocava a unir, todos choravam com as mãos em brasa, enquanto eu me mantinha firme sem pestanejar e só quando me sentava na carteira é que soprava e cuspia para as mãos, ao mesmo tempo que as esfregava.

         Ele não tinha esse direito e como não me via chorar, desatava-me à bofetada. Os outros ficavam admirados por eu nem sequer dar um ai e perguntavam-me como é que eu conseguia aguentar.

         Respondia-lhes que antes queria suportar a dor, que lhe dar a alegria de me ver chorar.

         O tal professor, começou a tornar-se famoso principalmente por gostar de ‘’encher a marmita’’ às pobres das criancinhas.

         De vez em quando lá iam aparecendo as mães de alguns para reclamar as reguadas que os filhos apanhavam e quase sempre começavam por dizer:

         - O senhor professor bate no meu filho e eu não lho admito, porque não é a bater que se ensina.

         Discutiam cheias de exaltação mas passados momentos acalmavam e ele acabava sempre por lhes dar a volta. E quando saíam quase sempre pronunciavam estas palavras:

         - Sim senhor professor, se ele é burro bata-lhe quando quiser, porque se ele for para casa queixar-se ainda apanha mais.

         Mas o professor acabaria por ter azar com a minha mãe, que certamente alertada por alguma vizinha, decidiu ir fazer uma visita à escola que se encontrava relativamente perto do prédio onde morávamos, mais propriamente na Rua do Espírito Santo.

         E foi precisamente numa altura em que eu me encontrava no quadro a fazer contas e que ele suavemente e com maior instinto de malvadez, me ia dando com o ponteiro na cabeça.

         A minha Mãe abriu a porta sem bater, entrou desvairada na direcção dele e disse-lhe:

         - O senhor não bate no meu filho. Eu não lhe dou esse direito. Se quiser bater, bata nos seus. Se não os tem faça-os.

         Eu fiquei aterrado e envergonhado perante tal situação e só me dava vontade de fugir. Se tivesse um buraco tinha-me enfiado pelo chão abaixo.

         O professor atónito dizia:

         - Mas minha senhora tenha calma não se exalte, porque assim não podemos conversar.

         Enquanto a minha mãe dizia:

         - Se bate mais no meu filho eu vou processá-lo!

         Ele insistia:

         - Mas minha senhora o seu filho não estuda e nunca sabe a lição.

         Se não estuda a obrigação do senhor era mandar-me chamar, para que eu tomasse providências sobre o assunto.

         Entretanto chegaram a consenso de ideias e a coisa acabou por abrandar, ficando a minha mãe com a promessa de me fazer estudar.

         A lição que a minha mãe deu ao professor, serviu-lhe de emenda, porque a partir desse célebre dia, nunca mais bateu em ninguém. E eu acabei por me dedicar afincadamente aos estudos, porque se não em vez de apanhar dele, começava a apanhar dela.

         Passei a ter controle absoluto por parte da minha tia Eduarda, que vivia connosco e me obrigava a estudar, não me deixando sair de casa enquanto não soubesse a lição toda, de cor e salteado. A minha mãe, como trabalhava, não me podia dispensar tanta atenção.

         Desse modo acabaram-se os jogos de futebol, os ninhos, dos pássaros, os lagartos que apanhávamos ao laço com toucinho, as touradas que fazíamos com uma camisola encarnada, toureando os bois na Quinta do Zé Carrélas, os banhos no rio e no Pego da Arroja, quando nesse tempo a água que corria era pura e límpida, muito diferente do mijo que hoje corre.

 

         Desculpe-me o leitor, o tê-lo massacrado com esta narrativa da minha infância, que nada tem a ver com a guerra da Guiné e que na generalidade só teve fundamento de mostrar, a minha personalidade e orgulho quando era miúdo e ao mesmo tempo a maneira de como fui criado e educado.

         Nada mais fiz que lembrar os meus tempos de meninice, o que ainda hoje recordo com uma certa alegria.