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SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

A  ÉPOCA  DAS  CHUVAS

 

        

 

stávamos em meados de Abril e o capitão ordenou que se começassem a tirar os telhados de palha dos abrigos, para serem substituídos por chapas de zinco, por ser mais higiénico e não dar tanta origem a esconderijo da bicharada. Esta tarefa coube ao Barata e ao Deputado, visto serem os únicos entendidos em carpintaria. O Deputado na vida civil era carpinteiro de barcos em Setúbal e com fama de artista e grande profissional.

         Começaram as obras com diversos ajudantes a apoiá-los.  Trabalharam arduamente e quase sem descanso, mas conseguiram que os telhados ficassem prontos antes das chuvas.

         O mês de Maio principiou e trouxe com ele milhares e milhares de insectos de todas as espécies, que sobrevoavam o céu ao mesmo tempo que anunciavam o Inverno. A terra aquecia e dela exalava um vapor com um cheiro nauseabundo, que nos sufocava e dificultava a respiração.

         Numa tarde o céu começou a ficar escuro e carregado de nuvens negras com o vento a soprar pior que furacão, partindo árvores e arrancando as chapas de zinco dos telhados dos abrigos, que voavam a mais de 100 km. por hora, connosco a fugir à frente!...

         De repente, começou a fazer relâmpagos, logo seguida fortes trovões, que metiam respeito e faziam estremecer todo o solo da Guiné. E por mais incrível que pareça, os telhados de palha das tabancas nem sequer mexiam!

         Começou a chover torrencialmente, o vento acalmou e nós aproveitámos para vir cá para fora tomar banho de chuva para combater a "Lica".

         Chamávamos Lica a umas borbulhas muito pequenas que apareciam no corpo, mais no peito e nas costas, provocados pelo calor e transpiração. A água da chuva era a melhor cura para esse mal e disso tivemos a prova passados poucos dias.

         No dia seguinte voltou tudo à forma anterior contratou-se pessoal da população e em poucas horas já tínhamos outra vez telhados novos, mas agora  construídos com palha da bolanha.

         A bolanha era uma área descampada onde crescia a palha e o capim, com uma altura de  aproximadamente 2 m, e que no Inverno ficava substancialmente inundada; isto nas partes baixas porque as partes altas eram aproveitadas para as colheitas do arroz.

         A chuva continuava a cair, forte e incessantemente, dia e noite. As bolanhas começaram a ficar inundadas e as saídas para as emboscadas foram-se reduzindo, assim como também os ataques do inimigo.

         As saídas, embora se fizessem menos, tornavam-se cada vez mais dolorosas, devido ao solo enlameado e aos pântanos que tínhamos de atravessar, sabe Deus com que dificuldades. Por vezes enterrávamo-nos quase até ao pescoço, mas lá íamos prosseguindo com a arma e as cartucheiras à cabeça. E se por acaso o percurso fosse muito longo, começávamos a ficar com os pés em sangue devido ás areias que se depositavam nas botas e se infiltravam através das meias.

         O fantasma da morte acompanhava-nos a cada passo que dávamos, dançando nas minas que se soltavam da terra e que nós encontrávamos a boiar.

         Por vezes pensava que era preferível a morte a tanto sofrimento, mas sentia em mim uma força muito forte e sobrenatural, que me incitava a prosseguir em frente e me ia dando alento e forças para superar tanto sacrifício.

         A chuva não parava e iria ser assim durante mais ou menos seis meses. A Guiné só tem duas estações, ‘’Inverno’’ e ‘’Verão’’, seis meses praticamente de chuva e outros tantos de seca. Fomo-nos habituando e como as saídas já não eram tão frequentes, aproveitávamos o tempo para ler, escrever, jogar cartas e passar algumas horas com o pessoal nativo nas tabancas.

         Era por esta altura que começavam a plantar o arroz, que só seria colhido  no final do Inverno. Andavam portanto bastante atarefados e este trabalho era feito quase exclusivamente pelos homens.

         Como tinha tempo eu aproveitava para passar mais algumas horas com a Huana e a Danka ... e assim ia passando os meus dias, o mais agradável quanto possível.

         Os relâmpagos à noite, no reforço, ajudavam-nos a visibilidade e como eram bastante fortes davam um raio de luminosidade que nos ajudava a ver com perfeita nitidez tudo o que nos rodeava.

         Numa noite, por volta das 4 horas da manhã, estava no último reforço, quando um desses fortes relâmpagos me atingiu em cheio nos olhos, deixando-me completamente cego, ao mesmo tempo que rebentava também com o gerador do quartel.

         Tentei não entrar em pânico e esperei alguns segundos até recuperar a visão... que tardava em voltar... desesperadamente entrei pelo abrigo dentro às apalpadelas, gritando que estava cego!...

         O susto foi grande e demorado, porque só passados talvez mais de quinze minutos é que comecei a ver uma ténue claridade, até que muito lentamente fui recuperando a visão normal.