Make your own free website on Tripod.com

 

SHERNO ou memórias da guerra na Guiné

 

PASSAGENS  COM  O  PATO

         

 

 

um certo dia estávamos uns quantos a conversar e a rir na parada superior, quando apareceu o Pato e eu de brincadeira apalpei-lhe o pacote. Ele um tanto ou quanto risonho respondeu :

         - Ai, ai, temos páquí paneleis a bôdo ó quê.

         Escusado será dizer que o riso foi geral.

         Num outro dia às 17 horas estávamos à espera que o oficial de dia nos passasse revista para sairmos com toque de ordem, até à 1 hora da manhã, pois quando não havia instrução nocturna tínhamos essa permissão, uns iam para casa passar essas horas com a família, outros como eram da província e não tinham cá família iam passear pela cidade, como era o caso do Pato que raramente saía, mas nesse dia saiu.

         O oficial de dia depois de passar revista, disse que queria dois voluntários para irem ajudar na cozinha. Como ficou tudo surdo ele não perdeu tempo e apontou para mim e para o Pato:

         - Tu e tu podem destroçar e depois de limparem o que têm a limpar podem sair.

         O Pato foi lavar os pratos e os púcaros, que eram de alumínio, eu fui varrer o chão e depois com a mesma vassoura que era de píassava lavei os tachos e os caldeirões da sopa. De repente lembrei-me do Pato e gritei-lhe:

         - Pato vê lá se te despachas,

         ele respondeu:

         - O qué que tu queles, já labei os patos e os putos todos.

         Era assim que o Pato, infelizmente falava; só  peço a Deus para que se tenha recuperado e corrigido dessas deficiências.  Embarquei com ele no mesmo navio, o Uíge. Fizemos portanto a viagem juntos, mas quando desembarcámos na Guiné cada qual seguiu o seu destino, ele foi para o Norte e eu para o Sul, e até à presente data nada mais soube dele, quando já se passaram 30 anos.

         Ele era natural de Alcobaça e raramente aproveitava os fins de semana para ir à terra, nunca soube porquê, mas também não me dei à curiosidade de saber. Numa ocasião tivemos direito a um fim de semana à quinta-feira, coisa rara pois o normal era ser à sexta, e o Pato aproveitou essa ocasião, para ir até Alcobaça matar saudades da família.  Como sempre o toque de ordem era às 17 horas e a instrução acabava às 16,45; nessas alturas era ver os que iam para a província a encafuarem nas malas as roupas, os tachos e as marmitas.

         O Pato como há muito não ia a casa, tinha portanto uma montanha de roupa suja para lavar. Trouxe uma mala de cartão e um saco de lona abarrotar. Eu vim com ele e muitos outros apanhar o eléctrico a Belém que na altura era a carreira 16 que ia para o Poço do Bispo e parava na Estação de Santa Apolónia, eu como morava na Rua Vale de Santo António, ficava perto de casa. Íamos portanto todos acompanhados. Escusado será dizer que o eléctrico àquela hora, principalmente, à sexta-feira, ia todo cheio de fardas verdes. Nesse célebre dia, eu e o Pato vínhamos no atrelado mesmo na última porta, de pé, ele cheio de contentamento por ir matar saudades com a família, que há muito não via, eu feliz também por poder estar junto da mulher e dos filhos.

         Entretanto o eléctrico ia-se aproximando cada vez mais de Santa Apolónia, de repente entrou na curva e os militares começaram a saltar do carro em andamento, o Pato quando viu os outros nem hesitou, e sem pensar imitou-os.

         Agarrou no saco e na mala e disse:

         - Adeus Serra e catrapumba ... mandou-se.

         Eu ainda lhe gritei :

         - Pára não faças isso, mas já foi tarde ...

         Só vi o Pato a ir pelos ares todo enrolado com as malas, a roupa os tachos e as marmitas, já no chão.  O eléctrico parou mais à frente e eu desatei a correr ao encontro do Pato, que ficou num autêntico molho de brócolos. Ajudei a levantá-lo e comecei a meter a tralha toda nas malas, que ficaram bastante danificadas, perante o olhar curioso dos transeuntes que lamentavam o sucedido e se prontificavam a ajudar no que fosse necessário.  O Pato muito envergonhado só pensava em fugir, mas com as malas rebentadas era quase impossível; acalmei-o e fui a uma loja pedir cordel, depois de ajeitarmos e atarmos o saco e a mala, Lá seguimos pela estação  até ao comboio e o Pato partiu com algumas esfoladelas e nódoas negras.

         Fomos sempre bons amigos, mas quis o destino que pouco mais tempo estivéssemos juntos, os meus dias por ali estavam contados.